Li recentemente uma entrevista com o Rivaldo na Folha de São Paulo (caderno Ilustrada, 20/02/2011) que é de parar pra pensar...

Perguntado sobre publicidade de bebida e cigarro, o craque disse que não critica quem faz, mas que ele próprio não aceita fazer, nem por uma fortuna. Disse ainda que quando estava começando, chegou a fazer propaganda para Brahma, mas depois percebeu que aquilo se tratava de um erro. E que quer ser um exemplo, principalmente para as crianças.

O raciocínio de Rivaldo faz sentido. Cerveja e esporte não combinam, não há o que discutir. Ou alguém aí acha que um atleta consegue manter um bom rendimento se beber tudo aquilo que a propaganda nos sugere?

Mas não foi só por isso que Rivaldo ganhou pontos comigo. Num país onde o futebol é paixão nacional, onde as ruas ficam desertas em dia de jogo da Copa do Mundo e onde as crianças muitas vezes aprendem a cantar o hino de seus times antes de deixar de usar fralda, é uma loucura que jogadores e técnicos ignorem sua responsabilidade junto ao público infantil e se coloquem como garotos-propaganda de produtos que causam impactos sobre a saúde e são impróprios para as crianças.

“Ah, mas a propaganda não é pra criança”, dirão alguns... “Ah, mas criança não bebe cerveja”, dirão outros (o próprio Ronaldo Fenômeno já falou isso uma vez!).

Acontece que no Brasil – pasmem! – a cerveja e o vinho não são considerados bebidas alcoólicas para fins de publicidade, o que permite que esses produtos sejam anunciados mesmo antes das 21h, em programas com classificação indicativa livre para todos os públicos – como jogos de futebol. Isso significa que crianças de todas as idades ficam expostas a esse tipo de propaganda que, muitas vezes, traz seus ídolos balançando um copo lindo e dourado de uma bebida que elas não deveriam experimentar... Mas experimentam!

Uma pesquisa realizada pelo médico psiquiatra Jairo Bouer em 2008 revelou que o jovem brasileiro está começando a beber cada vez mais cedo: 37% dos entrevistados com menos de 13 anos já beberam alguma vez. Aos 13 anos, 50% já tiveram contato com o álcool e aos 16 anos esse número chega a 80%. Dos jovens entrevistados, 30% começaram a beber de forma regular aos 14 anos e apesar de a legislação brasileira permitir o consumo de bebidas alcoólicas somente a partir dos 18 anos, 90% afirmaram que são facilmente adquiridas antes dessa idade.

Por tudo isso, achei as declarações de Rivaldo de uma lucidez impressionante e necessária. E elas vieram num momento oportuno também: está no ar uma propaganda da Brahma que traz o Cafu, aquele eternizado pela camiseta ‘100% Jardim Irene’ em 2002, falando sobre consumo responsável de bebida...

Parece bacana, mas pra mim não passa de uma tentativa da Brahma de se eximir de qualquer responsabilidade sobre os números alarmantes aí de cima. Como se a proteção da infância coubesse apenas aos pais e aos estabelecimentos que vendem o produto – e ela, que gasta bilhões todos os anos por meio de anúncios, não tivesse nada a ver com o assunto.

E o Cafu, infelizmente, merece cartão vermelho também. Afinal, emprestar sua imagem de saúde e seu peso de ex-capitão da Seleção Brasileira pra vender um produto que causa tantos problemas de saúde, sociais e custa tanto aos cofres públicos, não pode ser considerada uma atitude muito responsável... Especialmente num país onde quase todos os meninos já sonharam em ser jogador de futebol algum dia.

Pra saber mais, vale conferir a newsletter especial do Projeto Criança e Consumo sobre Juventude e Bebidas Alcóolicas.

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  1. Cadu
    Cadu em Quinta-feira 03 Março 2011 16:38
    Concordo em parte. Daria cartão amarelo para o Cafu. A intenção foi boa. E para mim, crucificar a Brahma é um pouco exagero; responabilizá-la por todos os dados alarmantes, pois a educação tem que partir dos pais, é só não ligar a TV uai. Põe pra brincar, desenhar, etc. Dificil tarefa, mas cabe aos pais coibir, repito, a grande responsabilidade de "tungar" as crianças de situações como essa. Boa!

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