Durante esses quatro últimos anos que trabalho no Projeto Criança e Consumo, especificamente na área de Educação, posso dizer que vi muitos avanços em relação à conscientização da sociedade civil, e aí incluem-se pais e educadores, sobre os impactos negativos da publicidade na formação saudável de nossas crianças. Um bom exemplo disso é o manifesto Publicidade Infantil Não, que já conta com quase 15 mil assinaturas e mais de 150 instituições apoiando. Mas, vi também muitos abusos serem cometidos no que diz respeito ao direcionamento de mensagens de marketing para crianças menores de 12 anos. São muitas denúncias que recebemos diariamente... Spots de rádio, merchandising, sites, publicidade na TV, embalagens com personagens licenciados, lanches com brindes e mais recentemente ações de marketing em escolas. E, talvez pela minha área de formação, esse tipo de abuso foi, sem dúvida, o que mais me chocou.

Escola não é lugar de publicidade. Não é shopping center. É espaço de formação de valores, de exercício de cidadania e principalmente de socialização e aprendizagem. A escola é o segundo espaço de socialização da criança depois da família. É lá que a criança geralmente acaba de construir sua linguagem e é lá também que aprende que sua liberdade acaba quando a do outro começa. A escola contemporânea de fato recebe crianças bem diferentes das de outros tempos. São crianças que se relacionam com as novas mídias, participam de redes sociais e usam o celular não somente para se comunicar. São crianças que passam em média 5 horas do seu dia assistindo TV, segundo os últimos dados do Ibope. Sendo assim, não podemos mais negar que hoje uma outra pedagogia se instalou. Temos uma educação informal sendo veiculada pelas mídias e afetando a formação de nossos pequenos. E, até mesmo por isso a escola, como espaço de educação formal, deve ser hoje um lugar também de ampliação do repertório das crianças. Um espaço onde a criança de fato tenha tempo e espaço para brincar e que passe valores mais humanos e menos materialistas.

Além disso, acredito que as escolas contemporâneas têm a obrigação de formar cidadãos mais conscientes em relação ao consumo. A criança será uma consumidora no futuro e precisa ser preparada para isso. E essa preparação se faz com educação. Educação para o consumo consciente. Não acredito que só a discussão sobre reciclar e reduzir vai dar conta. Temos que incluir a redução do consumo nesse pauta. Devemos incluir também nas escolas a educação para uso crítico das mídias.

E por fim ressalto que é inadmissível que as escolas permitam ações de marketing no seu cotidiano. E a maioria dos pais, graças a deus, concorda comigo. Esse foi o resultado da pesquisa encomendada pelo Projeto Criança e Consumo ao Datafolha.

Na pesquisa 2.061 pessoas maiores de 16 anos, pais ou não, responderam à questão “É correto as empresas fazerem propaganda dentro das escolas?” e 56% se posicionaram contra. Aqueles que têm filhos compartilham um pouco mais dessa opinião: 59% são contrários à propaganda nas escolas, em comparação com 49% entre os que não têm filhos.

Os motivos mais comuns para não concordar com a divulgação de publicidade em escolas são:

•    Escola não é lugar de vender produtos (33%)
•    Não tem nada a ver com educação (23%)
•    As crianças, alunos podem ser levados a consumir produtos que não são bons para elas (22%)
•    As crianças não estão preparadas para tomar uma decisão sobre os produtos que vão consumir (20%)


Bom, o tema do consumismo na infância de fato entrou na agenda social e virou pauta quente entre os jornalistas. Agora é hora de sensibilizarmos os educadores para o tema, que precisa de um olhar mais cuidadoso e atento pelas escolas que recebem nossas crianças e ali tem a oportunidade diária de educar para a cidadania e não para o consumismo.

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