A revista do Conar nº 193 traz como matéria de capa uma entrevista com seu presidente, Gilberto Leifert. Mais uma vez não resta dúvidas sobre o posicionamento da entidade em relação às discussões mais atuais sobre os limites da publicidade e mesmo da ética publicitária: um posicionamento retrógrado e parado no tempo.

Ao falar do debate sobre restrições para a publicidade de alimentos – que, diga-se de passagem, está na agenda de diversos países, como no caso recente do Chile, e já foi alvo de regulação por muitos outros como ocorreu em 2006 na Inglaterra – Gilberto diz que “qualquer limitação à publicidade apenas tangenciaria o problema”. E ironiza: “Cercear a publicidade não alterará a formulação dos alimentos e refrigerantes nem modificará a genética ou o metabolismo humanos”.

Infelizmente a hora não é para ironias. A população mundial está cada vez mais obesa. E isso é um problema de saúde pública, tanto por conta das doenças crônicas não transmissíveis, como em razão dos gastos públicos que origina. É bem certo que a publicidade não é a única responsável, mas também é consenso científico que a publicidade é um dos fatores que tem contribuído sobremaneira para o aumento dos índices de obesidade na grande maioria dos países, inclusive no Brasil.

Ao dizer que a posição do Conar de contrariedade às restrições recentemente propostas pela Anvisa estaria em “perfeita sintonia com as últimas orientações da OMS” Gilberto, no mínimo, induz o leitor a uma confusão. Na sua última Assembleia, a Organização Mundial de Saúde recomendou a todos os Estados Membros que tomassem medidas no sentido de restringir a publicidade de produtos alimentícios com alto teor de sódio, açúcar e gorduras e de bebidas de baixo teor nutricional e, ainda, especificou que um esforço maior deveria acontecer no sentido de se diminuir a exposição de crianças a mensagens comerciais de tais alimentos, inclusive em escolas, parques ou outros lugares freqüentados pelo público infantil.

Da mesma forma, atacar a Anvisa, dizendo que jamais imaginou que ela “pudesse afrontar tantas vezes a Constituição da República” é também uma postura que não se coaduna com a preocupação social. Sabe-se que a Agência está em uma força tarefa e estudo o tema há anos, promovendo discussões – inclusive com a ampla participação da sociedade e do mercado –, em um esforço bastante louvável no sentido de colocar em prática regras efetivas e que contribuam no combate ao problema.

É hora de toda a sociedade unir esforços, trabalhar conjuntamente em prol da melhoria da qualidade de vida do cidadão, que tem direito de ser informado na publicidade sobre os malefícios à sua saúde que podem ser causados pelo consumo excessivo e habitual de produtos alimentícios considerados pouco nutritivos.

Está na hora de parar com os apelos publicitários massivos às crianças chamando-as a consumir cada vez mais alimentos e bebidas que contribuem para o sobrepeso e obesidade. A publicidade precisa se reinventar. E o Conar poderia ter uma posição de vanguarda nesse sentido, levando a seus associados o posicionamento mais atual, como fez o renomado diretor de criação Alex Bogusky, ao invés de tentar manter um discurso tão em dissonância com o que realmente almeja a nossa sociedade.

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