Quando minha pequena nasceu, há pouco mais de 4 anos, me perguntei se ia mesmo dar conta do recado de ser mãe. Vou saber se ela está chorando de fome ou de dor? Vou conseguir estabelecer uma rotina para um bebezinho que chora às 3 da manhã querendo mamar? Ela vai dormir a noite inteira em algum momento da vida? Indagações infinitas! Quando a gente supera uma, logo vem outra, batendo na porta. No entanto, minhas aflições foram dando lugar a uma estranha segurança e logo me vi, junto com o pai dela, formando uma menina linda, cheia de vida e de personalidade.

Fiquei meio abobada ao vê-la dar o primeiro passo e, depois, se livrar das fraldas. Ela mesma deu sumiço na chupeta, que eu encontrei no lixo do banheiro. “Vou fazer três anos e com três anos a gente não usa chupeta”. E aquela coisinha indefesa, recém-saída da barriga, hoje é uma garotinha muito da esperta e aventureira, que se joga na piscina e mergulha a cabeça na aula de natação sem medo de aprender o novo. Puro orgulho! 

Mas nunca esqueço que ela é criança, pequeninha, e que ainda não entende nada desse nosso mundo meio selva de pedra. Procuro preservá-la ao máximo e, ao mesmo tempo, lembrar que não posso criar uma redoma de vidro para ela. Esse equilíbrio é muito difícil, um desafio cotidiano.

São milhões de coisas que me deixam aflita como mãe, desde as mais rotineiras até aquelas que realmente exigem atenção, a exemplo da violência. Preocupações e cuidados naturais, não é mesmo? Só que hoje sinto que tem uma coisa a mais, que talvez minha mãe e a mãe da minha mãe não tenham sentido tanto: a relação entre infância e consumo.

Procuro oferecer um ambiente diversificado para minha filha. Ela freqüenta parques, natureza, brinca, desenha, joga bola, corre... também assiste à televisão sim, embora com tempo controlado e programas pré-estabelecidos. 

Mesmo assim, para minha surpresa, ela anda repetindo coisas que só podem vir de publicidade. Outro dia cheguei em casa com a sacola da farmácia e ela disse: “Você comprou Dettol!” [para quem não sabe é aquele sabonete líquido antibactericida]. O sabonete estava em promoção e espalhado pela farmácia inteira. Ao invés de comprar a marca de costume, resolvi arriscar. Mas nunca imaginei que minha pequena, que nem sabe ler, conhecesse o raio do produto!

Eu educo, converso, dou limite. Estou presente sempre, dando muito carinho e atenção. O resultado está aí, com ela a cada dia mais segura e mais feliz. Obviamente não consigo protegê-la desses apelos para o consumo. A sorte é que eu tenho consciência de que esse é um problema que ultrapassa a porta da minha casa e  aprendi a lidar com isso dando limites. 

Mas ela já foi impactada pela publicidade... e eu corro atrás de minimizar esse impacto, porque mesmo que eu doe a minha televisão, essas mensagens comerciais estão aí: nas embalagens, nos produtos licenciados (que vão de mochilas, roupas a alimentos), nos supermercados. 

O que incomoda mais é o abuso, a agressividade do mercado anunciante para chamar a atenção desse público tão vulnerável e interessado em conhecer tudo! São verdadeiras esponjas, que devem ser preservadas de apelos para o consumo. 

A pergunta é: como, nós, pais, lutamos contra isso sozinhos? Impossível!

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  1. AJ Freire
    AJ Freire em Sexta-feira 20 Maio 2011 13:15
    Educação financeira é importante para a criação! A criança irá saber ter limites e suprir o impulso de compra. Pretendo, desde cedo, ensinar isso ao meu Padawan,
  2. Vanessa
    Vanessa em Sexta-feira 20 Maio 2011 15:27
    Vivemos inseridos num sistema capitalista que tem o consumo como base e como fim, é impossível criar um filho longe dos valores de consumo sob pena de ele acabar um pária. Porém, acho que é nosso dever criar o consumidor consciente , o ser humano com valores reais .

    Abraço

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