Lembro até hoje do som ensurdecedor dos recreios de minha infância. Começavam com o toque alto de um alarme ou de um sino, seguido do barulho dos sapatos da criançada correndo para o pátio. Era o momento de colocar nosso corpo em movimento. Correr, pular amarelinha, jogar bola ou bambolê.

Parece que hoje, pelos relatos que tenho ouvido de profissionais que trabalham em escolas, os recreios têm sido mais silenciosos do que em outros tempos, já que as crianças ficam conectadas aos seus aparelhos de celular, enviando e recebendo mensagens de texto, ou plugadas em seus iPods e jogos do Nintendo DS. Fato que nos silencia também.

O que fazer? Muitas escolas têm tomado decisões na linha da proibição. Proíbem de passar pelo portão esses apetrechos tecnológicos, que fazem parte da vida e rotina das crianças contemporâneas. Será essa a solução?

Essa não é a única polêmica atual sobre recreios. No mês passado, por exemplo, o jornal O Estado de S. Paulo publicou matéria sobre escolas que passam atividades direcionadas em recreios e ouviu muitos especialistas que se dividiam em duas opiniões distintas. Tinham aqueles que acreditam que os recreios dirigidos são uma solução para os recreios silenciosos, pois com atividades propostas direcionadas amplia-se o repertório de brincadeiras de crianças que crescem hoje confinadas em espaços fechados e cercadas de eletrônicos, não sabendo mais brincar. Já outros, como Adriana Friedmann, do Movimento Aliança pela Infância, defendem que as crianças possam se expressar através da linguagem natural delas, que é o brincar, e têm certeza de que os pequenos saberão como se entreter sozinhos e criar brincadeiras bem imaginativas.

Segunda-feira, 28 de março, a Folha de S. Paulo publicou matéria similar, que trazia o conceito de ‘infância indoor’ para descrever essa geração confinada das grandes cidades, que parece precisar da mediação do educador para brincar.

Pois é... Parece que na atual sociedade de consumo temos convidado nossas crianças a crescer antes do tempo lotando suas agendas com atividades extras, seus armários com coisas supérfluas e seus recreios com atividades quase pedagógicas. Recreios devem ser barulhentos, pois eles são um momento, dentro das escolas, quando as crianças podem ser livres para se relacionar e se socializar dentro da rotina tão marcada e repleta de atividades que preenche o dia a dia das crianças hoje.

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  1. Bia Bedran
    Bia Bedran em Quarta-feira 30 Março 2011 15:08
    Gostei muito de sua colocação. Sou professora também além de conviver com escolas na função de artista, cantora e compositora. Parabéns por suas ideias que muito contribuem com a nossa lida cotidiana dentro desta questão.
    Abraços da
    Bia Bedran 21 85081104
  2. Paulo Gurgel
    Paulo Gurgel em Quarta-feira 30 Março 2011 15:18
    Tenhamos cuidado em não silenciarmos o presente com a visão romanticamente ensurdecedora do passado.
  3. Equipe Projeto Criança e Consumo
    Equipe Projeto Criança e Consumo em Quinta-feira 31 Março 2011 15:13
    Bia e Paulo, obrigado pela visita no blog e pela participação no debate sobre o consumismo infantil. Sobre o assunto, vale ler o seguinte post: http://www.consumismoeinfancia.com/2011/02/10/cidadaos-em-desenvolvimento/
  4. Jobis
    Jobis em Domingo 03 Abril 2011 13:56
    Também acho que o "recreio dirigido" não é a melhor solução. Acho, ainda, que os tempos mudaram, e que, igualzinho ao passado não dá para ser, o que não é necessariamente ruim.
    Embora não goste de proibições definitivas, talvez a desconexão no momento de escola não seja algo ruim. Por que precisamos estar conectados o tempo todo? Por que não podemos, simplesmente, estar ali, no presente?
    O que percebo é que, todos nós, somos mais ou menos como crianças diante de brinquedos novos, perante a tecnologia, e que isso, naturalmente, abre a porta para os excessos. Então, meu questionamento é: porque uma criança precisaria estar online 24 horas?
  5. Vera Rocha
    Vera Rocha em Domingo 03 Abril 2011 21:56
    A escola e o espaço de socializacao das crianças jogos eletrônicos são de uso individual, ninguém compartilha por orientação dos próprios pais, pois são caros. Não acho que devam estar presentes na escola. Qto a dirigir as atividades talvez seja a triste constatação que a geração que consome por consumir, passa o tempo de brincar na frente da tv e do computador, não consegue criar, apenas reage ao que já esta pronto.
  6. Equipe Projeto Criança e Consumo
    Equipe Projeto Criança e Consumo em Segunda-feira 04 Abril 2011 11:49
    Olá pessoal, sobre esses temas vale ainda a leitura da nossa newsletter especial temática sobre a importância do brincar, que está disponível em:
    http://www.alana.org.br/_news/2009/out/ed-brincar/newsletter-outubro-2009-ed-brincar.html
  7. Lia
    Lia em Terça-feira 19 Abril 2011 18:19
    Vamos assumir uma postura diferente: as crianças tem um comportamento diferente das de outras épocas.

    Para elas, estar em frente a um Ipod ou celular é melhor do que brincar de esconde-esconde.

    A partir do momento que brincadeiras de rua "saíram de moda", seja pelo perigo que são as ruas com violência ou por interferência dos meios eletrônicos, será cada mais difícil ver uma criança brincar no pátio. NO ENTANTO, se o educador a estimular, pode ser que esse comportamento possa ser condicionado, ocasionando uma maior interação entre as próprias crianças.

    Sobre a proibição: é difícil manter o controle de uma turma sem uma dada repressão. Quem é da área sabe... Não podemos nos iludir também pensando que tudo é flores e que as crianças entenderão do porquê estão sendo privadas de utilizarem os seus equipamentos eletrônicos. Sendo que muitas vezes elas mal entendem do porquê de irem para a própria escola.
  8. andaiá lima mello
    andaiá lima mello em Segunda-feira 23 Maio 2011 12:15
    Olá
    Trabalho na Lua Nova, escola particular em Salvador que promove debates sobre diversos temas relacionados a Infância. No próximo semestre vamos conversar com pais da escola e também realizaremos mesa-redonda, em parceria com a Livraria Cultura, sobre Infância e consumo. Gostaríamos, por favor, de indicação deste Instituto de profissionais em Salvador que tivessem interesse em discutir conosco sobre o tema e participar deste evento.
    Cordialmente
    Andaiá Mello

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